Sexta, 20 Março 2026 12:07

População negra é a mais prejudicada com juros altos e desemprego no Brasil

Por Almir Aguiar Por Almir Aguiar

No próximo sábado, 21 de março, celebramos o Dia Internacional de Luta pela Eliminação da Discriminação Racial. A data é importante para lembrar que a discriminação racial não se manifesta apenas por meio de práticas racistas explícitas que devem ser criminalizadas, como prevê a legislação brasileira , mas também de forma estrutural.

O modelo econômico rentista e as medidas neoliberais, que geram recessão, redução de direitos e desemprego, atingem toda a classe trabalhadora, especialmente negros e negras, que historicamente ocupam a base da pirâmide social. Basta observar as consequências das reformas trabalhista, no governo de Michel Temer (MDB), e previdenciária, conduzida por Paulo Guedes durante o governo Bolsonaro (PL).

A recente queda de 0,25 pontos nos juros pelo Copom é ainda insuficiente e o argumento de que a guerra no Oriente médio impede novas reduções na Selic não se justifica porque os juros no Brasil já são muito superiores aos praticados em nível internacional.

Quem mais sofre com juros altos e políticas recessivas são negros e negras. Um exemplo frequentemente negligenciado são as elevadas taxas de juros praticadas pelo Banco Central no Brasil entre as mais altas taxas reais do mundo. Nada justifica esses patamares.

Além de comprometer a economia nacional, ao impedir o desenvolvimento sustentável, gerar desemprego e reduzir o potencial de investimento do Estado em áreas sociais como saúde e educação, essa anomalia sustentada pelo cartel dos bancos prejudica principalmente a população mais pobre, base da pirâmide social, composta majoritariamente por negros e negras.

Uma parcela significativa da riqueza produzida no país é destinada ao pagamento de juros da dívida pública ao sistema financeiro, o setor mais lucrativo da economia. Em 2025, os quatro maiores bancos do país Itaú, Bradesco, Santander e Banco do Brasil lucraram, juntos, R$ 107,8 bilhões, resultado diretamente influenciado pela elevada taxa Selic, a taxa básica de juros, o que contribui para o aprofundamento da desigualdade social.

Quem perde com a manutenção dessa política do Banco Central são, sobretudo, os trabalhadores, mas também o setor produtivo, diante do aumento do endividamento de famílias e empresas. Em 2026, cerca de 81 milhões de brasileiros e 8,9 milhões de empresas estão endividados.

Estudo da USP revela que, a cada ponto percentual de elevação da Selic, o desemprego cresce mais entre a população negra. Entre homens negros, a taxa sobe 0,1 ponto percentual, enquanto, no conjunto da população negra, o aumento chega a 0,32 ponto percentual ou seja, 1,2 vez maior.

A explicação é clara: negros e negras estão, em sua maioria, em ocupações de menor renda, mais precárias e que exigem menor qualificação, como na indústria e na construção civil setores mais afetados pela política de juros elevados.

O Dia Internacional de Luta pela Eliminação da Discriminação Racial reforça a importância de evidenciar o recorte racial dos impactos dos juros altos no Brasil, assim como das reformas que reduzem direitos.

Trata-se não apenas de um problema econômico, mas também social, que atinge toda a população, sobretudo a população negra.

Já passou da hora de a classe trabalhadora ampliar a mobilização e exigir “juros baixos já”. Afinal, quem se beneficia dessa política rentista, desonesta e injusta, são os bancos e os especuladores. Basta de juros altos.

Em 2026, temos ainda o desafio de reeleger o presidente Lula para impedir o avanço de políticas econômicas ultraliberais da extrema-direita, que já têm na gaveta uma nova reforma da Previdência, com proposta de elevação da idade mínima para 70 anos medida que penaliza, mais uma vez, os mais pobres, em sua maioria negros.

Também precisamos impedir que o Brasil, a partir de 2027, siga o caminho de países como a Argentina, com aumento da jornada de trabalho para 12 horas e retirada de direitos, prejudicando a classe trabalhadora e, no caso brasileiro, especialmente a população negra.

É fundamental, portanto, ir às ruas para cobrar juros mais baixos, em níveis compatíveis com os padrões internacionais. Isso fortalece a economia, beneficia a classe trabalhadora e evita a manutenção de uma política econômica com recorte racial, que penaliza principalmente a população negra.

Almir Aguiar é secretário de Combate ao Racismo da Contraf-CUT.

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